Leite não previne fraturas e aumenta mortalidade em adultos monitorados por estudo

Por Yuri Gonzaga

Um estudo de uma universidade sueca publicado na edição desta semana do periódico acadêmico “British Journal of Medicine” que monitorou dois grupos de adultos e idosos, um com 61,4 mil mulheres e outro com 45,3 mil homens, diz que a ingestão de leite de vaca não preveniu fraturas por fragilidade óssea e, em grandes quantidades entre as pessoas de sexo feminino, chegou perto de dobrar a mortalidade.

A pesquisa, feita com metodologia de coorte (grupos contemporâneos de pessoas) pela Universidade Uppsala, concluiu que a presença de cálcio e de vitamina D, essenciais para o esqueleto, não são capazes de prevalecer sobre a grande quantidade de açúcares prejudiciais no leite e em derivados, e acabam por trazer benefício nulo ou prejuízo a quem os consome.

Figo: boa fonte de cálcio em forma de fruta (Ramnath Bhat/Flickr.com/Creative Commons)
Figo: boa fonte de cálcio em forma de fruta (Ramnath Bhat/Flickr.com/Creative Commons)

A lactose e sua derivada galactose são as moléculas de açúcar vilãs da história, segundo o estudo: causam oxidação e inflamação sobre as células em um processo semelhante ao do envelhecimento.

Derivados de leite com baixo teor de lactose (e em especial alimentos subtraídos desse carboidrato), mantida a taxa de cálcio, portanto, podem ajudar a prevenir faturas e osteoporose, diz a pesquisa.

O acompanhamento de cada indivíduo durou 22 anos em média. Ao longo do período, 15,5 mil mulheres e 10,1 mil homens morreram.

O índice de mortalidade de mulheres que ingeriam diariamente três copos de leite (680 ml, ou o equivalente a isso em derivados, ou uma combinação na média da amostra), comparado ao das que consumiam um copo ou menos (com média de 60 ml por dia na amostra) foi 93% superior.

No grupo masculino, também houve mortalidade superior nessa mesma comparação, mas menos pronunciada, a 10%.

Segundo os pesquisadores, liderados por Karl Michaëlsson, professor do departamento de ciências cirúrgicas, o consumo de três copos de leite por dia levou a maior incidência de doenças cardiovasculares em homens e em mulheres, e em maior incidência de câncer em mulheres.

A ocorrência de gorduras saturadas e de colesterol no leite integral e em queijos são agravantes nesse sentido.

Quando do início do estudo, em 1987, as idades dos grupos eram entre 39 e 74 anos para o feminino e entre 45 a 79 anos para o masculino.

“A grande quantidade de lactose e, portanto, de galactose, no leite com a teorética influência em processos como estresse oxidativo e em inflamação tornam uma contradição as recomendações de aumentar o consumo de leite para prevenção de fraturas”, escrevem os estudiosos.

Hummus, pasta de grão de bico e tahini, ambos alimentos com boa quantidade de cálcio (Marju Randmer/Flickr.com/Creative Commons)
Hummus, pasta de grão de bico e tahini, ambos alimentos com boa quantidade de cálcio (Marju Randmer/Flickr.com/Creative Commons)

VEGANOS

O estudo corrobora, assim, os benefícios de uma dieta livre de ingredientes de origem animal, por meio da qual pode-se obter cálcio no gergelim, na soja (e no tofu), em castanhas, na couve e no espinafre, sem mencionar os leites vegetais e os cereais fortificados.

A escola de saúde pública da Universidade Harvard recomenda que, em vez de leite, folhas escuras e legumes sejam ingeridos para se conseguir cálcio.

Apesar disso, um especialista consultado pelo jornal “Telegraph”, do Reino Unido (um país cuja autoridade sanitária aconselha o consumo de 550 ml de leite por dia para prevenção de osteoporose), afirmou que o estudo sozinho não deve ser tomado como base para mudar uma política nacional, ao menos por enquanto.

A fragilidade óssea é um processo gradual que começa por volta dos 30 anos. Adultos que não consomem quantidades suficientes de cálcio e de vitamina D podem sofrer com osteoporose, uma descalcificação esquelética que os torna propensos a fraturas graves, como a de quadril.

atualização: Alguns leitores reclamaram sobre a interpretação do estudo pelo texto. Concordo com a afirmação de não ter sido claro quanto à conclusão ser causal, fator mencionado na conclusão do estudo. Mudei o anterior título de Leite não previne fraturas e aumenta risco de morte em adultos, diz estudo para o atual.

atualização 2: Fabio Chaves, do Vista-se, bem observou que o Ministério da Saúde brasileiro também recomenda o consumo diário de “três porções de leite e derivados”, já que seriam “a principal fonte de cálcio na alimentação” (na alimentação do autor da cartilha, esqueceram-se de mencionar…).