‘Não se deveria comer carne no Brasil’, diz pecuarista em documentário; veja

Por Yuri Gonzaga

A frase, dita por um dono de fazenda de criação bovina extensiva e “orgânica” nos EUA, é no contexto em que ele é confrontado com o problema do desmatamento da Amazônia brasileira (62,2% da área desmatada até 2008, segundo o Inpe, foram ocupados por pastagens), no documentário ambientalista e pró-vegetarianismo “Cowspiracy” (2014), de Kip Andersen.

“Se o ambiente deles não foi ‘projetado’ para criar gado bovino, então eles [brasileiros] não deveriam estar comendo [carne]”, diz Erik Markegard, proprietário da Markegard Family Grass-Fed, na Califórnia, que se orgulha de oferecer até 200 mil metros quadrados de pastagem por vaca.

É possível ver a cena a partir do minuto 44:35 do vídeo abaixo.

(há uma cena forte em 1:10:50 que talvez pessoas sensíveis prefiram evitar)

A aproximação apresentada por Andersen durante o diálogo, de cerca de 80%, diz respeito a outro estudo, do Banco Mundial em 2003, que diz que 91% da devastação têm raiz na pecuária. Todas as referências bibliográficas foram publicadas no site do filme.

AQUI E EM TODO LUGAR

Em seguida, o longa apresenta uma conta de Andersen que mostra que, na verdade, a maneira de Markegard é insustentável não só para brasileiros, mas para todo habitante do planeta.

Pinçar essa frase tem só a intenção de pegar a parte pelo todo da película, que destrincha o aspecto ecológico do consumo de todo produto de origem animal, mas também passa pelo socioeconômico e de direitos dos animais, a exemplo do brasileiro “A Carne É Fraca”.

O cultivo da soja no Brasil, outro fator de desmatamento da floresta amazônica, é um agravante nessa questão, segundo um estudo de 2009 da UFPA (Universidade Federal do Pará).

A Aprosoja (Associação dos Produtores de Soja e Milho do Matogrosso) afirma que “sempre que comemos carne estamos ingerindo soja”, já que “80% do farelo de soja, junto com o milho, compõem a ração para a alimentação animal” –ração essa que vai contra a natureza dos ruminantes, outro tema de “Cowspiracy”.

Pastagem em área desmatada da Amazônia em Peixoto de Azevedo (MT) (Rodrigo Baleia/Folhapress)
Pastagem em área desmatada da Amazônia em Peixoto de Azevedo (MT) (Rodrigo Baleia/Folhapress)

Ainda no tocante ao Brasil, o filme fala sobre os assassinatos dos que se puseram contra a devastação da floresta, como o da missionária americana Dorothy Stang.

A irmã Dorothy, organizadora de projetos de desenvolvimento sustentável no interior do Pará, foi morta a tiros em 2005 a mando do pecuarista Valtamiro Bastos de Moura.

Em caso semelhante, o ativista e sindicalista Chico Mendes, teve a morte encomendada pelo também pecuarista Darly Alves da Silva, em 1988, no interior do Acre.

AMBIENTALISTAS CONTRA O AMBIENTE

Quiçá o assunto mais paradoxal do documentário é a recusa sistemática de algumas ONGs ditas ambientalistas, como o Greenpeace e a WWF, em dar uma entrevista sobre o assunto.

Ainda que 18% das emissões de gases que causam o efeito estufa sejam causados pela pecuária (ante 13% de todo o transporte) no mundo, segundo a FAO (2006), nenhuma das organizações mencionadas por Andersen no filme faz campanha pela redução do consumo de carne.

Daí o nome “Cowspiracy”, que significa algo como “Conspiração das Vacas”. O lado sombrio de processos judiciais contra os que se posicionaram contra a pecuária nos EUA também é relatado.

No Brasil, o Greenpeace diz “acreditar que a decisão de se tornar vegetariano contribui para reduzir a pressão sobre a floresta e sobre o clima”, mas que “não estabelece julgamento moral sobre indivíduos” no que concerne a dieta.

“É uma escolha de âmbito pessoal”, diz a declaração, publicada em fevereiro após a polêmica de a ativista brasileira que ficara detida na Rússia ter sido recebida com churrasco na sua volta. “Não enxergamos contradição entre esse posicionamento e nossa defesa pela Amazônia.”

ÁGUA

A revista pró-carne nos EUA “Beef Magazine”, em resposta ao documentário, cita especificamente o dado da AAAS (Associação Americana pelo Avanço da Ciência) que diz que 20,8 mil litros de água são usados na produção de cada quilo de carne.

Segundo a “Beef Magazine”, em um texto que a autora diz não ter assistido ao longa, são apenas 3.680 litros por quilo (citando um site do lobby pecuarista nos EUA, o Facts About Beef). O que este site faz é citar um estudo da Universidade Estado de Washington (EUA), que fala somente sobre as cifras americanas (e menciona o número global, pela Unesco, de 15,5 mil litros de água por kg de carne).

Fora isso, afirma a revista, camisetas requerem muito mais água que carne (2.700 litros por unidade). “O que ela não diz é uma defesa da ideia de que as pessoas consumam uma camiseta nova toda noite”, ironizou Chris Sosa, jornalista do “Huffington Post”, em texto sobre “Cowspiracy”.

“COWSPIRACY: THE SUSTAINABILITY SECRET”
Kip Andersen, Keegan Kuhn
1h25min
EUA
26 de junho de 2014
R$ 49,90 (pré-venda)