Veto à carne seria exagero, diz autor do projeto de lei contra foie gras

Por Yuri Gonzaga

O vereador de São Paulo Laércio Benko (PHS), cujo projeto de lei pelo fim da venda do foie gras (fígado de ganso engordado à força) foi aprovado pela Câmara na semana passada, disse em entrevista ao “Veg” não ser vegetariano e que uma hipotética legislação contra a venda de carne seria radical.

“Não dá para produzir galinha do dia para a noite. A maior parte da população brasileira come carne de galinha e carne bovina”, diz. “O foie gras é um prazer do qual podemos abrir mão tranquilamente, isso não vai mudar a cotação do dólar nem mudar a vida de ninguém, drasticamente.”

“Procuro diminuir o consumo de carne, faço a dieta proposta pelo Paul McCartney”, diz, em referência à campanha mundial Segunda sem Carne, apoiada pelo ex-beatle. “Uma ideia que defendo é o imposto sobre a exportação da carne, já que mandamos para fora do país 20 mil litros de água por kg de carne, de graça.”

Benko diz que acredita que a sociedade possa se tornar vegetariana. “Quem sabe daqui a 300 anos, mas é passo a passo”. “Eu, como sou reencarnacionista, não tenho problema em esperar.”

Ganso alimentado à força para a produção do foie gras em Farmington, Califórnia  (Peter DaSilva/The New York Times)
Ganso alimentado à força para a produção do foie gras em Farmington, Califórnia (Peter DaSilva/The New York Times)

APROVAÇÃO

Apesar das críticas contra o PL –que seria inconstitucional por tratar-se de um tema de âmbito nacional, não local–, Benko acredita que o prefeito paulistano Fernando Haddad vá “respeitar o Poder Legislativo e demonstrar sentimento democrático.”

Para o advogado Ives Gandra Martins, Haddad “vai vetar, com toda a razão”. “Matéria de ambiente e de animais é de competência da União [governo federal]”, disse ao “Veg”.

“Seria uma lei absolutamente estúpida, porque nada impediria que eu comprasse o foie gras em Osasco ou São Bernardo [cidades da região metropolitana] e leve meu próprio num restaurante em São Paulo. Há irracionalidade nisso”, diz.

No caso de uma eventual sanção pelo prefeito –que é a última etapa para que o projeto possa virar lei–, Gandra Martins diz que alguma entidade, seja partido político, empresa ou ONG, poderia entrar com uma ação direta de inconstitucionalidade no Tribunal de Justiça do Estado.

“O Ives foi meu professor. Com todo respeito, é de uma linha ‘ultramasterconservadora’, e as pessoas que tendem a se opor à proibição do foie gras são as conservadoras”, diz Benko. “O município tem, sim, capacidade de legislar sobre isso. O projeto foi debatido e foi aprovado.”

Benko diz não ter falado pessoalmente com o governante da capital paulista, por questão ética. “Mantenho uma linha equidistante ao governo e à oposição.”

Sobre o fato de Haddad ser apreciador do foie, Benko concorda, de certa forma, com Gandra Martins: “Ele pode passar a comer em Alphaville [conjunto de condomínios fechados na Grande São Paulo].”

Animal é manuseado antes de seu abate para a retirada do fígado em frigorífigo do município catarinense de Indaial (Carlos Cecconello - 3.nov.11/Folhapress)
Animal é manuseado antes de seu abate para a retirada do fígado em frigorífigo do município catarinense de Indaial (Carlos Cecconello – 3.nov.11/Folhapress)