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Blog sobre dieta vegetariana e assuntos relacionados a ela, como dicas de nutrição, é produzido pelo repórter Yuri Gonzaga, que foi ovolactovegetariano entre 2008 e 2010 e é vegetariano estrito desde 2011.

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Além do veganismo

Por Yuri Gonzaga

Deixar de comprar alimentos, roupas, cosméticos e outros produtos que contêm ingredientes diretamente tirados de animais (ou os animais em si) é uma premissa básica do veganismo, esse estilo de vida que engloba o vegetarianismo estrito (não comer carne, leite ou ovos).

Mas não é possível controlar a produção de qualquer coisa que se consome: mesmo quem planta a própria comida não consegue dizer com precisão se matou minhocas ou insetos, por exemplo. Que dirá comprando produtos de agricultura não orgânica e industrializados.

Algumas pessoas, como o defensor do crudivorismo e frugivorismo Eduardo Corassa, do site Saúde Frugal, e Robson Fernando de Souza, do Veganagente, propõem ir além do veganismo e o boicote da indústria monocultora que destrói ecossistemas brasileiros (mas não só), como a sucroalcooleira e a da soja.

Segundo a FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura), somente nove espécies de vegetais representam 75% da produção agrícola mundial, muitas das quais são geneticamente modificadas. (São elas: trigo, arroz, milho, cevada, sorgo, batata, batata doce, cana-de-açúcar e soja).

O cenário não é só ruim para a agricultura tradicional porque são usados agrotóxicos que matam diretamente as espécies que ameaçam a lavoura e indiretamente as que vivem do mesmo solo e de mananciais próximos e tratores e outra maquinaria preparada só para eficientemente arar, plantar e colher uma só espécie. A total desconsideração do bioma –muitas vezes magnanimamente biodiverso tais quais Cerrado, Pantanal, Amazônia e Mata Atlântica– torna a monocultura, essencialmente, um crime organizado contra o ambiente.

O desequilíbrio pode ser “eficiente” em aniquilar a fauna e a flora permanentemente.

O Brasil é o maior consumidor de pesticidas do mundo, segundo um relatório do Inca (Instituto Nacional do Câncer) e aplica anualmente 5,2 kg de agrotóxicos por pessoa, em média (mais de um milhão de toneladas anuais).

Quanto mais são usados agrotóxicos (diretamente e indiretamente contra os animais), mais precisam ser usados, já que eles criam tolerância nas pragas alvejadas, como mostra um relatório publicado pela Universidade Harvard. (O estudo também aponta que as próprias espécies escolhidas pela monocultura, como o milho, perdem variedades dentro de si; além disso, sua expansão elimina a biodiversidade da qual depende para prosperar.)

A expansão do desmatamento na Amazônia afeta não só a região, mas o clima do restante do país e do mundo, com, por exemplo, a extensão do período seco e a redução das chuvas totais no ano, segundo o pesquisador Antonio Donato Nobre, do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais).

Entre 2014 e 2015, o desmatamento da floresta amazônica cresceu 215%, de acordo com o Imazon, sendo a agricultura e a pecuária as principais responsáveis. Nesse processo, incontáveis (literalmente) espécies são perdidas, principalmente as de animais em extinção.

MELHOR COMER CARNE?

Argumentar que uma sociedade que caminha rumo ao vegetarianismo é perigoso para o ambiente por causa dos métodos de produção da agricultura industrial é equivocado, principalmente porque as monoculturas mais devastadoras não são voltadas majoritariamente para a alimentação humana.

O exemplo da soja é fatídico: segundo a WWF, 79% da produção mundial dessa leguminosa é usado como ração para gado.  Outros 18% são para fazer óleo. Os demais 3% são destinados majoritariamente para alimentação direta de pessoas.

Nos EUA, onde o milho reina entre as monoculturas, um terço do cereal destina-se ao gado domesticamente; outros 13% são exportados, em grande parte, também para servir de ração; e 40% são utilizados na fabricação de etanol –o aproximado restante de 13,3% se divide entre bebidas e comida.

Também de acordo com o INPE, 75% do desmatamento amazônico e metade dos gases-estufa emitidos pelo Brasil são relacionados à pecuária.

Ou seja, abster-se de carnes, de ovos e laticínios é ordens de magnitude melhor do ponto de vista ambiental.

CONSUMIR O QUE É NATIVO, DE ÉPOCA

O aquecimento global é um grande responsável pela morte de animais e de plantas no mundo todo e conspira para um futuro incerto tanto para a biodiversidade quanto para nós, primatas avançados.

Segundo estudos mencionados pelo grupo Good Earth Food Alliance, a distância média pela qual alimentos são transportados antes de chegar ao consumidor é de 2.400 km.

Em uma pesquisa americana citada pelo Worldwatch Institute, o autor escrutinou um iogurte de morango para descobrir que seus três ingredientes haviam viajado, juntos, 3.600 km só até a fábrica onde foram processados –antes de serem levados a um centro de distribuição, a um supermercado e, então, o consumidor.

Importados causam quatro vezes mais demanda por energia e quatro vezes mais emissão de gases-estufa, segundo o instituto.

Além das emissões que contaminam o ambiente e todo o impacto ambiental causado pelo transporte, veículos matam diretamente os animais nas estradas: segundo o site CultureChange, 1 milhão de bichinhos são atropelados por dia só nos EUA.

Isso significa que, além de pegar a bicicleta, o bilhete único ou os tênis de caminhada (ou os três) em vez das chaves do carro para se locomover, evitar alimentos processados e de origem distante é essencial para amplificar o impacto do veganismo.

Jabuticabeira. Foto: Adriano Makoto Suzuki/Creative Commons via Flickr
Jabuticabeira. Foto: Adriano Makoto Suzuki/Creative Commons via Flickr

Isso não é dizer boicotar totalmente trigo, mirtilo, alcachofra, aspargo ou outras espécies exóticas ao Brasil, mas preterir seu consumo ao do que é local, especialmente o plantado em hortas sabidamente próximas à situação do local de compra. Viva a mandioca.

(Uma lista do Ministério da Agricultura inclui como principais frutas importadas pelo país pêra, uva, maçã, pêssego, kiwi, ameixa, cereja e, pasme, coco. Do outro lado da balança, o país exporta melão, manga, limão, mamão, banana.)

O consumo produtos sasonais fora da época implica, invariavelmente, importar ou forçar uma produção que demanda condições não naturais, com muito maior consumo de água, fertilizantes, possivelmente agrotóxicos. Para quem é de São Paulo e região, a Ceagesp tem uma tabela que aponta que produtos são mais propícios para o consumo em cada mês.

IN NATURA

Não é preciso dizer que o impacto ambiental de alimentos processados supera os consumidos diretamente. Segundo a ONG Earth Policy, só 21% da energia utilizada pela indústria alimentícia são resultado da produção.

Catorze porcento são relacionados ao transporte; 4% à venda; e 23% ao processamento e à embalagem. Congelados são especialmente danosos, segundo o grupo, e não é preciso dizer o porquê.

Assim, é melhor comprar o que é fresco. Ou plantá-lo.

Algumas pessoas, certamente os supracitados Robson Fernando de Souza e Eduardo Corassa, argumentariam que essas práticas são inerentes, longe de estranhas, ao veganismo. Eu não discordaria.

FREEGAN, O VEGANO LIVRE

Assunto para um outro post, o freeganismo (junção de “free”, livre, e veganismo) propõe o consumo do que é desperdiçado pela sociedade. Não só alimentos atirados no lixo, mas também o que deixa de ser vendido por supermercados e feiras livres por não encontrar um comprador ou por chegar ao “prazo de validade”.

É não só um boicote, mas o combate ativo ao modelo de alimentação industrial.

  • Um episódio do podcast Ouvindo Abobrinhas, de Flavia Schiochet e Carlos Urquizar, trata especificamente desse estilo de vida. (Schiochet também fala sobre a generosidade da natureza, que tem a ver com o freeganismo, o frugivorismo e tudo o que há de bom em um texto em seu blog)
  • Um documentário, “Just Eat It”, mostra como um casal viveu só de restos durante seis meses nos EUA, só para mostrar que é possível
  • No tópico, a iniciativa Fruta Feia, concebida em Portugal, propõe dar preferência a alimentos “feios”, rejeitados por consumidores
  • Em um provocativo texto, o ex-vegano Rhys Southan propõe que veganos poderiam, essencialmente, se alimentar de qualquer coisa não-vegana encontrada no lixo ou que irreversivelmente seria atirada nele. (Southan também argumenta que ostras, insetos, águas-vivas e outras coisas, algumas mais macabras, seriam perfeitamente aceitáveis do ponto de vista lógico)

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